Publicado por: Celso | 25/07/2011

Não toqueis nos meus ungidos!


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Não toqueis nos meus ungidos!

Ao ouvir esta frase, a maioria dos crentes tremem na base por entenderem  que   o termo “ungido” é uma referencia exclusiva a figura de um pastor ou pastora, e em contrapartida a muitos se aproveitam da falta de conhecimento de suas ovelhas e utilizam do termo para fazer um terrorismo psicológico, colocando os membros de sua igreja numa posição de submissão total, não permitindo a ninguém questionar seus atos, suas convicções, seus ensinos e muito menos seus projetos pessoais em relação a caminhada da igreja. Muitos crentes se calam, não se manifestam e pecam pela omissão por medo de serem duramente castigados por Deus, caso se coloquem numa posição de oposição a atitudes, ensinos e pelos ideais do líder, muitas vezes contrários aos desejos e anseios da comunidade.

Para esses crentes o “ungido” está numa posição de destaque e privilégios diante de Deus, podendo fazer o que bem quiser, pois está imune a qualquer castigo ou repreensão tanto da comunidade, como da parte de Deus. Um absurdo sem tamanho e considero como a causa  principal  de tantos escândalos envolvendo pastores na atualidade.

Muitos pastores e líderes se utilizam de versículos isolados para criarem uma  imunidade espiritual, imunidade essa que os colocam acima de qualquer dúvida ou questionamento proporcionando a eles o direito de agirem ou falarem qualquer coisa com liberdade total, como se fossem  representantes diretos de Deus na terra, sob a pena de Deus envia uma maldição ou grande castigo sobre a vida daquele que ousar questionar seus ensinos e atitudes, mesmo estando agindo de forma contrária ao seu chamado e ao regimento da instituição. Impoem  suas vontades de forma opressora, tomam decisões baseadas apenas em suas próprias convicções e projetos pessoais, não permitindo a igreja o direito de questionar e se posicionar. É muito comum nesses casos ouvirmos de membros da própria comunidade que não podemos fazer nada a respeito, a não ser orar a Deus e esperar que Deus intervenha de alguma forma, se Ele assim quiser, enquanto isso não acontece, a igreja se cala, se submete e nada faz.

O mais intrigante é que sempre que  me fala isso, pergunto  onde está escrito isso? de onde vem este ensinamento que todo pastor é ungido e pode tudo? Em que parte da bíblia diz que ele está acima do bem e do mal e só Deus pode tomar alguma atitude contra ele?   E como se é de esperar, ninguém sabe, a maioria apenas diz que na bíblia está escrito: “Ai daquele que se levantar contra o ungido de Deus”, sem citarem  a referencia.

Alguns  obedecem por pura ignorância sobre o assunto, outros por medo da repreensão vinda de Deus, e ainda tem os que  por estarem numa zona de conforto em suas vidas profissional e financeira  com alguma estabilidade, quando são confrontados a  defenderem suas convicções e se posicionarem diante de alguma situação, mas diante do “risco” de perderem as bênção, se calam mesmo que isso signifique assistirem a atitudes erradas ou até mesmo a entrada de heresias e falsos ensinos no seio da comunidade afetando a fé de pessoas simples e sinceras. Para segurarem as “bênçãos” adquiridas como consequência da obediência, não importando a quem e o que esteja obedecendo se apegam a esta frase para esconder sua covardia.

E quanto as referencias bíblicas?  Então vamos lá!

“Lembrai-vos perpetuamente da sua aliança e da palavra que prescreveu para mil gerações; Da aliança que fez com Abraão, e do seu juramento a Isaque; O qual também a Jacó confirmou por estatuto, e a Israel por aliança eterna, dizendo: A ti te darei a terra de Canaã, quinhão da vossa herança. Quando eram poucos homens em número, sim, mui poucos, e estrangeiros nela, Quando andavam de nação em nação, e de um reino para outro povo. A ninguém permitiu que os oprimisse, e por amor deles repreendeu reis, dizendo: Não toqueis os meus ungidos, e aos meus profetas não façais mal”. 1Crônicas 16:15-22 ( encontra-se também no Salmos 105)

“O Senhor me guarde de que eu faça tal coisa ao meu senhor, isto é, que eu estenda a mão contra ele [Saul], pois é o ungido do Senhor” (1Sm 24:6).

“Não o mates, pois quem haverá que estenda a mão contra o ungido do Senhor e fique inocente?” (1Sm 26:9).

Vamos entender os textos:

Como podemos notar o texto de 1Crônicas 16:15-22 e Salmos 105, é uma citação de Davi em um de seus cânticos, referindo-se Abraão e sua descendência, numa época distinta,  num contexto histórico onde o seus ungidos (escolhidos) encontravam-se em posição de inferioridade em todos os sentidos, eram presa fácil nas mãos dos inimigos e corriam o risco de serem facilmente destruídos e dizimados da face da terra.

Mas qual é o significado de tocar?  Ora, a mensagem foi dada para as poderosas nações por onde o povo hebreu passava, até então um pequeno grupo de nômades, para que  não os saqueassem, os matassem ou  roubassem enquanto seguiam em suas peregrinações. Tocar significava, no contexto, agredir fisicamente a Abraão e a sua família. Exatamente o que  Davi evitou  fezer com Saul, não tocou e nem o matou, mesmo sendo caçado por Saul e tendo oportunidade para isso.

Para quem Deus fez a advertência de não tocar os ungidos e maltratar os profetas? Aos reis estrangeiros.

Isso é tudo o que diz a passagem, mesmo  com uma análise superficial do texto, percebemos que  isso não tem nada a ver com a proibição de confrontar, repreender, denunciar, questionar ou afastar-se de um líder religioso que torce os ensinamentos de Cristo.

 A relutância de Davi em matar Saul por ser ele o ungido do Senhor, mencionado em 1Samuel 24:6 e 26:9, É interpretado pela maioria dos crentes como um princípio bíblico referente aos pastores e líderes e deve  ser observado em nossos dias. Para eles, uma vez que os pastores, bispos e apóstolos são os ungidos do Senhor, não se pode de forma alguma acusa-los, contradize-los, questioná-los, criticá-los e muito menos mover qualquer ação contra a eles. A unção do Senhor funcionaria como uma espécie de  imunidade dada por Deus aos seus ungidos. Ir contra eles seria o mesmo que ir contra o próprio Deus.

Mas, será que é isto mesmo que  a bíblia nos ensina?

A expressão “ungido do Senhor” usada na Bíblia em referência aos reis de Israel se devia ao fato de que os mesmos eram oficialmente escolhidos e designados por Deus para ocupar os cargos  mediante a unção feita por um juiz ou profeta. Na ocasião, era derramado óleo sobre a cabeça para separá-lo para o cargo.e o óleo simbolizava a presença do Espírito Santo na vida do escolhido. Foi o que Samuel fez com Saul (1Sam 10:1) e depois com Davi (1Sam 16:13).

A razão pela qual Davi não queria matar Saul era porque reconhecia que ele, mesmo de forma indigna, ocupava um cargo designado por Deus. Davi não queria ser culpado de matar aquele que havia recebido a unção real.

Mas, o que não se pode ignorar é que este respeito pela vida do rei não impediu Davi de confrontar Saul e acusá-lo de injustiça e perversidade em persegui-lo sem causa (1Sam 24:15). Davi não  matou, mas invocou a Deus como juiz contra Saul, diante de todo o exército de Israel, e pediu abertamente a Deus que castigasse Saul, vingando a ele, Davi (1Sam 24:12). Davi também dizia a seus aliados que a hora de Saul estava por chegar, quando o próprio Deus haveria de matá-lo por seus pecados (1Sam 26:9-10).

Davi não queria  matar o ímpio rei Saul pelo fato do mesmo ter sido ungido com óleo pelo profeta Samuel para ser rei de Israel. Isto, todavia, não impediu Davi de enfrentá-lo, confrontá-lo, invocar o juízo e a vingança de Deus contra ele, e entregá-lo nas mãos do Senhor para que ao seu tempo o castigasse devidamente por seus pecados.

É o que dizem as passagens bíblicas, mesmo  com uma análise mais profunda dos textos, percebemos que  não tem nada a ver com a proibição de questionar, confrontar, contraditar, discordar e mesmo enfrentar com firmeza pessoas que ocupam posição de autoridade nas igrejas quando os mesmos se tornam repreensíveis na doutrina e na prática.

Infelizmente estes versículos são muito usados hoje em dia, apesar de fazerem referência a um povo;  época e situações específicas.

Se quisermos transportá-los para nossa época, teremos que aplicar a qualquer cristão, da mesma forma que ungidos se referia a nação de Israel, reis e profetas, hoje estaria se referindo a igreja,  Se qualquer um de nós se levantar contra  pessoa simples  ou mesmo um pastor e passar persegui-la, maltratá-la, agredir fisicamente e psicologicamente, iremos sofrer as consequências de nosso ato por não obedecermos ao Evangelho, que nos ensina a amar e perdoar, independente da posição que a pessoa ocupe.

A Bíblia nos permite tanto questionar os ministros, como também confrontá-los, quando vemos que há um sério erro doutrinário ou da ética em suas vidas. Isso está de forma clara  na Palavra de Deus:

 “Este testemunho é verdadeiro. Portanto, repreende-os severamente para que sejam sãos na fé” (Tito1:13).
 
 “Que pregues a palavra; que instes a tempo e fora de tempo; redarguas, repreende, exorta com toda paciência e doutrina” (2 Timóteo 4:2-3)
 
“Como te roguei, quando parti para a Macedônia, que ficásseis em Éfeso para advertires a alguns, que não ensinassem outra doutrina” (1 Timóteo 1:3)
Temos o direito de questioná-los. E também o direito de abandoná-los e sair de baixo de sua “autoridade espiritual” caso se recusem a corrigir a sua conduta imoral ou ensinamentos torcidos.
Vejamos o que Cristo nos ensina a respeito:
 “Deixe-os; são condutores cegos; ora se um cego guiar outro cego, ambos cairão na cova” (Mateus 15:14).
 Muitos líderes autoritários  usam o argumento de “não toqueis nos meus ungidos” para não serem questionados. Experimente  discordar  da maioria dos líderes atuais para ver o que te acontece. Rapidamente vc  é afastado das atividades, taxado de crente problema, hostilizado e ignorado até  pela comunidade que vc serviu tantos anos, que passa a te ver como um amaldiçoado e o pior dos pecadores, porque ousou se levantar contra o “ungido” de Deus.
Paulo ao relatar em sua carta que repreendeu Pedro por causa da hipocrisia, o fez  para servir de exemplo( Gálatas .2).
Quando Pedro se tornou repreensível, mesmo Jesus tendo chamado-o para apascentar suas ovelhas(Jo 21:16),  apesar de ser  mais velho na fé,  mesmo assim Paulo o repreendeu na frente de todos e mais, ele aceitou quieto.
Paulo orienta Timóteo da seguinte maneira, no caso de presbíteros (bispos/pastores) que errarem:
“Não aceites denúncia contra presbítero, senão exclusivamente sob o depoimento de duas ou três testemunhas. Quanto aos que vivem no pecado, repreende-os na presença de todos, para que também os demais temam” (1Tim 5:19-20).
Os “que vivem no pecado”, pelo contexto, é uma referência aos presbíteros mencionados no versículo anterior. Os mesmos devem ser repreendidos publicamente.
Muitos líderes autoritários  usam o argumento de “não toqueis nos meus ungidos” para não serem questionados.
O rei Davi era ungido e foi repreendido. Davi não matou Saul, mas também não se submeteu as suas loucuras, de certa forma ele questionou Saul com seu comportamento!
Os apóstolos de Jesus Cristo nunca apelaram para a imunidade quando foram acusados, perseguidos e presos pelos próprios crentes.
Vejamos Paulo, quantos sofrimentos ele não passou às mãos dos crentes da igreja de Corinto, seus próprios filhos na fé! Veja a sua reação:
“Já estais fartos, já estais ricos; chegastes a reinar sem nós; sim, tomara reinásseis para que também nós viéssemos a reinar convosco.Porque a mim me parece que Deus nos pôs a nós, os apóstolos, em último lugar, como se fôssemos condenados à morte; porque nos tornamos espetáculo ao mundo, tanto a anjos, como a homens.Nós somos loucos por causa de Cristo, e vós, sábios em Cristo; nós, fracos, e vós, fortes; vós, nobres, e nós, desprezíveis. Até à presente hora, sofremos fome, e sede, e nudez; e somos esbofeteados, e não temos morada certa, e nos afadigamos, trabalhando com as nossas próprias mãos. Quando somos injuriados, bendizemos; quando perseguidos, suportamos; quando caluniados, procuramos conciliação; até agora, temos chegado a ser considerados lixo do mundo, escória de todos.Não vos escrevo estas coisas para vos envergonhar; pelo contrário, para vos admoestar como a filhos meus amados. Porque, ainda que tivésseis milhares de preceptores em Cristo, não teríeis, contudo, muitos pais; pois eu, pelo evangelho, vos gerei em Cristo Jesus. Admoesto-vos, portanto, a que sejais meus imitadores” (1Cor 4:8-17).
Por que  Paulo não disse: “como vocês ousam se levantar contra o ungido do Senhor?”
Homens e Mulheres de Deus, chamados/as por Ele para o trabalho pastoral, não respondem às discordâncias, críticas e questionamentos calando a boca das ovelhas, mas com trabalho, argumentos, verdade e sinceridade. Não dizem: “não me toque que sou ungido/a do Senhor,”

Quando a Bíblia diz:

“Obedecei a vossos pastores, e sujeitai-vos a eles; porque velam por vossas almas, como aqueles que hão de dar conta delas; para que o façam com alegria e não gemendo, porque isso näo vos seria útil”. (Hebreus 13:17)

Este versículo sempre é colocado como complemento, para justificar 1Crônicas 16 15-22  muitos entendem esta obediência e sujeição cega e incondicional a qualquer pastor, mas se voltarmos um pouco atrás no texto veremos:

“Lembrai-vos dos vossos pastores, que vos falaram a palavra de Deus, a fé dos quais imitai, atentando para a sua maneira de viver”.(Hebreus 13:7)

Nossa obediência e sujeição está condicionada aos ensinamentos recebidos deles da Palavra de Deus, quando os pastores são exemplos de vida para nós, nos mostram com ensinamentos e atitudes o caminho certo a seguir, de maneira clara nos orientam sobre as ciladas das doutrinas, muitas vezes criadas por homens,  quando não incentivam a igreja a modismos, mas pregam o evangelho simples, sempre tendo a bíblia como regra de fé, pois fazendo isso estão velando por nossas almas.

Em 1Cronicas 16:15-22, após a declaração de não toqueis os meus ungido”, o texto continua com outra advertência que nunca é mencionada:

“…e não maltrateis os meus profetas.”

Mas isto é tema para outro post.

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Responses

  1. É aceitável ñão ficar se levantando contra os ungidos ;sem causa a bíblia me impõe a obediência a eles : mas me da o direito de olhar atentamente para a sua conduta cristã
    muitos ungidos estão usando deste subterfugio para fazerem o que bem entenderem e ninguém poder dizer nada ERRADO SE O EXEMPLO DOS
    FIÉIS….

    • Só para lembrar o rei Saul era um ungido do Senhor, seu filho Jonatas não compriu ordem do pai sabiamente, pois o rei estava louco!


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